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O Que É Bash? Um Guia Simples do Bourne Again Shell e da Linha de Comando

Um guia simples e sem jargões sobre o Bash, o programa dentro da janela preta de texto em que os desenvolvedores digitam. Tenha uma primeira conversa real com ele, veja o que acontece quando você aperta Enter, renomeie 1.000 fotos em menos de um segundo e leia seu primeiro script.

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Você já viu nos filmes: um hacker num quarto escuro, digitando numa janela preta cheia de texto brilhante. A vida real é menos dramática, mas essa janela existe, e milhões de pessoas a usam todos os dias. Muitas vezes, o programa dentro dela se chama Bash.

O Bash é um shell: um programa que permite controlar um computador digitando comandos, em vez de clicar em ícones. O nome vem de Bourne Again SHell, um trocadilho que vamos explicar mais adiante. Ele roda na maioria dos servidores web do mundo, vem em quase todo sistema Linux, ainda está instalado em todo Mac e também pode rodar no Windows. Este artigo explica, em linguagem simples, o que é o Bash, como ele funciona e por que algo com cara tão antiga continua em toda parte.

O que é um shell?

Quando você usa um celular ou um notebook, normalmente conversa com ele por toques e cliques. O shell é outra porta de entrada: você escreve o que quer em palavras, e o computador responde em palavras.

Um bom jeito de imaginar isso é um restaurante:

O shell é um intermediário. No computador: você digita um comando e aperta Enter; o terminal é a janela que mostra o texto; o Bash lê o comando e inicia programas; os programas e o kernel, o núcleo do sistema, fazem o trabalho. A resposta volta pelo mesmo caminho e aparece na sua tela. Num restaurante: o cliente pede com palavras simples; a mesa é onde pedidos e pratos vão e voltam; o garçom entende o pedido e o repassa; a cozinha faz o trabalho de verdade. É comum confundir os nomes. O terminal é só a janela. O shell é o programa dentro dela que entende o que você digita. O Bash é o shell mais famoso. Outros são o zsh, o fish e o PowerShell do Windows

Você é o cliente. O terminal é a mesa: só a janela por onde o texto entra e sai. O Bash é o garçom: ele entende o seu pedido e o leva à cozinha. A cozinha é o resto do computador: os programas que fazem o trabalho de fato e o kernel, o núcleo do sistema operacional, que controla o hardware.

Por isso as pessoas dizem "abra um terminal" e "digite no shell" quase como se fossem a mesma coisa. Eles trabalham juntos, mas são programas diferentes. No Mac, por exemplo, a janela é um aplicativo chamado Terminal, e o shell dentro dele pode ser o Bash ou o seu primo zsh.

Uma primeira conversa com o Bash

Esta é uma sessão real. Digitamos estes comandos no Bash 5.2 do Ubuntu Linux, como uma usuária chamada maria, num computador chamado laptop, e copiamos as respostas exatamente:

Uma primeira conversa com o Bash, com comandos reais e as respostas reais, digitados no Bash 5.2 do Ubuntu Linux. 1, pwd, que significa mostrar a pasta de trabalho atual, responde /home/maria. 2, mkdir ferias cria uma pasta nova. 3, cd ferias entra nela. 4, touch praia.jpg por-do-sol.jpg notas.txt cria três arquivos vazios. 5, ls lista o que tem aqui: notas.txt, por-do-sol.jpg e praia.jpg. 6, ls *.jpg lista só os nomes que terminam em .jpg: por-do-sol.jpg e praia.jpg. 7, echo "Olá, $USER" responde Olá, maria, porque o Bash preenche o seu usuário. 8, echo $((365 * 24)) responde 8760, as horas de um ano, então também é calculadora. 9, bash --version responde GNU bash, version 5.2.21. Sem mouse, sem menus: você digita um pedido, aperta Enter e lê a resposta

Algumas coisas para reparar:

  • Cada linha começa com maria@laptop:~$. Esse é o prompt: o jeito do Bash de dizer "estou ouvindo".
  • Depois do cd ferias, o prompt mudou para ~/ferias$. O Bash sempre mostra onde você está.
  • Muitos comandos, como mkdir e touch, não imprimem nada quando funcionam. No shell, silêncio significa sucesso.
  • O $USER foi trocado pela palavra maria. Palavras que começam com $ são variáveis: nomes que representam um valor.

Anatomia de um comando

Todo comando segue o mesmo padrão simples. Este copia uma foto para uma pasta chamada backup:

Anatomia de um comando. O prompt, maria@laptop:~$, é o Bash avisando que está ouvindo: maria é quem é você, laptop é qual computador, o til é qual pasta (o til é a sua pasta pessoal) e o cifrão quer dizer "pronto, pode digitar". O comando cp -v praia.jpg backup/ tem quatro partes. cp é o comando: o que fazer, copiar. -v é uma opção: como fazer, v de verbose, me conte o que fez. praia.jpg é o argumento 1: copiar o quê. backup/ é o argumento 2: copiar para onde. A resposta real do cp é 'praia.jpg' -> 'backup/praia.jpg'. Os espaços separam as partes, e é por isso que nomes de arquivo com espaço precisam de aspas. Opções costumam começar com hífen
  • O comando é o verbo: o que fazer. Aqui, cp quer dizer copiar (do inglês copy).
  • As opções mudam o jeito de fazer. Costumam começar com hífen: -v pede ao cp que conte o que fez.
  • Os argumentos dizem sobre o que agir: copiar praia.jpg para backup/.

Os nomes dos comandos são curtos porque as pessoas os digitam o dia inteiro, e vêm do inglês: cp de copy (copiar), mv de move (mover), ls de list (listar), rm de remove (remover). Parecem enigmáticos no começo, mas são poucos os que você usa com frequência.

O que o Bash faz quando você aperta Enter

O Bash não apenas repassa as suas palavras. Antes de executar qualquer coisa, ele lê o seu comando e o reescreve. O Bash tem um recurso, o set -x, que mostra o comando reescrito, e nós o usamos para ver isso acontecer:

O que o Bash faz quando você aperta Enter, um exemplo real rastreado com o recurso set -x do Bash, numa pasta com praia.jpg, por-do-sol.jpg e notas.txt. Passo 1, lê a linha: você digitou cp *.jpg ~/old. Passo 2, divide em palavras nos espaços: cp, *.jpg e ~/old. Passo 3, expande os atalhos, em que o asterisco é qualquer nome e o til é a sua pasta pessoal: o comando vira cp por-do-sol.jpg praia.jpg /home/maria/old. Passo 4, procura o programa olhando cada pasta listada na variável PATH: /usr/local/sbin, /usr/local/bin, /usr/sbin e por fim /usr/bin, onde o cp é encontrado. Passo 5, executa /usr/bin/cp com 3 argumentos e espera terminar. Passo 6, mostra o prompt de novo, pronto para o próximo comando. O programa de cópia nunca vê o asterisco nem o til. O Bash reescreve o comando antes, e assim todo programa ganha curingas de graça

O truque mais útil aqui é o *, chamado de curinga. *.jpg quer dizer "todo nome que termina em .jpg". O Bash troca o curinga pela lista real de arquivos antes mesmo de o programa começar. Assim, cp, mv, rm e qualquer outro programa ganham curingas de graça, sem precisar saber nada sobre eles.

Uma esquisitice que vale conhecer: se nada combinar, o Bash deixa o * como está. Quando esvaziamos a pasta e rodamos o mesmo tipo de cópia, recebemos este erro real:

cp: cannot stat '/home/maria/ferias/*.jpg': No such file or directory

O cp foi procurar um arquivo chamado literalmente *.jpg. É uma surpresa clássica para iniciantes, e um bom lembrete de que quem cuida do * é o Bash, não o programa.

Dez comandos do dia a dia e cinco teclas úteis

Dá para ir surpreendentemente longe com pouquíssimos comandos:

Dez comandos do dia a dia e cinco teclas úteis. Comandos: pwd mostra em qual pasta você está. ls lista os arquivos desta pasta. cd fotos entra na pasta fotos. cd .. sobe uma pasta. mkdir viagem cria uma pasta chamada viagem. cp a.txt b.txt copia a.txt para b.txt. mv a.txt notas/ move, ou renomeia, um arquivo. cat a.txt mostra o conteúdo de um arquivo. grep pizza a.txt acha as linhas que dizem pizza. man ls abre o manual do ls, e q sai. Teclas: Tab completa um nome, por exemplo digite cd Doc e aperte Tab. As setas para cima e para baixo percorrem os comandos que você já digitou. Ctrl + C interrompe o comando em execução. Ctrl + R busca nos seus comandos anteriores. Ctrl + L limpa a tela. Cuidado com o rm, de remove: ele apaga arquivos na hora. Não existe lixeira para recuperá-los

As teclas importam tanto quanto os comandos. Quem tem experiência quase nunca digita um nome de arquivo inteiro: digita as primeiras letras e aperta Tab, e o Bash completa. A seta para cima traz de volta o último comando, então corrigir um erro de digitação leva um segundo. E o Ctrl + C é o freio de emergência quando algo demora mais do que você esperava.

O Bash também conecta comandos. O símbolo |, chamado de pipe (cano, em inglês), manda a saída de um comando para o próximo, e o > salva a saída num arquivo:

ls *.jpg | wc -l          # lista as fotos e conta as linhas: imprime 2
ls *.jpg > fotos.txt      # salva a lista de fotos num arquivo

Os pipes são uma das grandes ideias do Unix, e o artigo sobre o Unix mostra seis programinhas ligados por pipes para achar as palavras mais comuns de uma história.

Por que digitar se dá para clicar?

Para um arquivo, clicar funciona bem. O shell brilha quando você precisa fazer a mesma coisa muitas vezes. Imagine que a sua câmera chamou 1.000 fotos das férias de IMG_0001.jpg a IMG_1000.jpg, e você quer que elas se chamem viagem-praia-0001.jpg e assim por diante. Nós testamos:

Renomear 1.000 fotos: clicando vs uma linha de Bash. Transformar IMG_0001.jpg até IMG_1000.jpg em viagem-praia-0001.jpg até viagem-praia-1000.jpg. À mão: cerca de 83 minutos, se cada arquivo levar 5 segundos: clicar, F2, digitar, Enter. Com o Bash: menos de 1 segundo, medido. A linha é: for arquivo in IMG_.jpg; do mv "$arquivo" "viagem-praia-${arquivo#IMG_}"; done. "for arquivo in IMG_.jpg" quer dizer para cada arquivo cujo nome bate com IMG_*.jpg. "do" quer dizer faça isto. mv "$arquivo" "viagem-praia-${arquivo#IMG_}" renomeia, porque o mv recebe o nome antigo e o novo, e ${arquivo#IMG_} é o nome sem o IMG_, como 0001.jpg. "done" é o fim do loop. Medido num contêiner Ubuntu: o loop renomeou 1.000 arquivos em 0,80 a 0,91 segundo, em seis execuções. Os 5 segundos por arquivo à mão são uma estimativa

Essa linha é um loop (laço de repetição): "para cada arquivo que combina com IMG_*.jpg, faça isto, e pronto". No nosso teste, ela renomeou os 1.000 arquivos em menos de um segundo, todas as vezes. À mão, mesmo num ritmo ágil de 5 segundos por arquivo, levaria bem mais de uma hora, e você provavelmente erraria a digitação algumas vezes.

Esse é o verdadeiro motivo de o shell ter sobrevivido por 50 anos. Clicar é fácil de aprender, mas não escala. Digitar comandos exige um pouco de aprendizado, e depois deixa você fazer mil coisas tão facilmente quanto uma.

Scripts: receitas de comandos

Se você se pega digitando os mesmos comandos de novo e de novo, pode salvá-los num arquivo e executar o arquivo. Esse arquivo é um script Bash, e é aí que o Bash deixa de ser só uma linha de comando e vira uma linguagem de programação:

Um script Bash é uma receita de comandos salva num arquivo, chamado backup.sh. A linha 1, #!/bin/bash, é o "shebang": rode este arquivo com o Bash. A linha 2 é um comentário, só para humanos lerem. A linha 3, destino=~/backup, é uma variável: dá um nome a um valor. A linha 4, mkdir -p "$destino", cria a pasta, e o cifrão lê a variável. A linha 5, shopt -s nullglob, faz o loop rodar zero vezes se não houver fotos. A linha 6, total=0, começa a contar do zero. As linhas 7 a 10 são um loop: para cada foto em ~/ferias/*.jpg, copia a foto e soma 1 ao total. As linhas 11 a 15 são uma decisão: se o total for 0, diz "Nenhuma foto encontrada.", senão diz quantas fotos foram copiadas. fi, "if" de trás para frente, é o fim da decisão. Executando de verdade: chmod +x backup.sh permite executar, x de executar. ./backup.sh executa. A resposta: Copiei 2 fotos para /home/maria/backup

O script tem tudo o que uma linguagem de programação precisa: variáveis para guardar coisas, loops para repetir coisas e decisões (if, "se" em inglês) para escolher o que fazer. A linha 5 resolve a esquisitice de antes: sem ela, uma pasta vazia faria o cp reclamar de um arquivo chamado *.jpg. Com ela, o script diz corretamente "Nenhuma foto encontrada." Testamos os dois casos.

Scripts assim fazem o mundo moderno funcionar em silêncio:

  • Servidores os usam para iniciar, fazer backups e limpar arquivos velhos, muitas vezes num horário marcado, como toda noite às 2h.
  • Instalar programas no Linux muitas vezes significa rodar um script que outra pessoa escreveu.
  • Builds automatizados, como o GitHub Actions, rodam seus passos com o Bash por padrão no Linux. Toda vez que alguém envia código novo, scripts Bash o testam e o publicam.
  • Contêineres Docker, as caixas em que roda a maioria dos aplicativos na nuvem, costumam ser montados com comandos de shell.

Onde você encontra o Bash

  • Linux: o Bash é o shell padrão na maioria dos sistemas Linux, dos notebooks com Ubuntu aos servidores que rodam sites e a nuvem.
  • Mac: o Bash foi o shell padrão do Mac de 2003 a 2019. Desde o macOS Catalina, contas novas usam o zsh, mas o Bash continua instalado. A Apple distribui uma versão antiga, a 3.2, porque as versões novas usam uma licença (a GPLv3) que a Apple evita.
  • Windows: o Windows tem os seus próprios shells, o Prompt de Comando e o PowerShell. Desde 2016, ele também roda o Bash de verdade pelo WSL, o Subsistema do Windows para Linux. Muitos desenvolvedores também usam o Git Bash, que vem com o Git para Windows.
  • Computadores pequenos: o Raspberry Pi, roteadores e muitos outros aparelhos rodam Linux, e normalmente têm um Bash ou um shell parecido lá dentro.

Quantas pessoas usam de fato? Na Pesquisa de Desenvolvedores do Stack Overflow de 2025, quase metade dos desenvolvedores que responderam disse ter trabalhado com Bash ou outro shell no último ano:

Cerca de metade dos desenvolvedores ouvidos usa Bash ou outro shell. Pesquisa de Desenvolvedores do Stack Overflow 2025: com quais linguagens você trabalhou no último ano, com 31.771 respostas. JavaScript 66,0%, HTML/CSS 61,9%, SQL 58,6%, Python 57,9%, Bash/Shell 48,7%, TypeScript 43,6%, Java 29,4%, C# 27,8%, C++ 23,5%, PowerShell 23,2%, C 22,0%, PHP 18,9%, Go 16,4%, Rust 14,8%. Cada pessoa podia marcar várias linguagens, então as barras somam mais de 100%. Bash/Shell fica em quinto, logo à frente de TypeScript e à frente de Java, C# e C++

O Bash raramente é a linguagem principal de alguém. Ninguém faz um aplicativo de celular nele. Mas ele é a cola que mantém todo o resto junto, e é por isso que aparece acima de linguagens famosas como Java e C++.

O Bash não para de crescer

O Bash tem mais de 35 anos e continua sendo melhorado. Baixamos seis versões do arquivo oficial do GNU e medimos duas coisas: o tamanho do manual impresso e quantas linhas de código o programa tem:

O Bash não para de crescer, medido em cada pacote de versão em ftp.gnu.org. Páginas do manual impresso: versão 1.14, de 1996, 37 páginas; 2.0, de 1996, 46; 3.0, de 2004, 63; 4.0, de 2009, 68; 5.0, de 2019, 81; 5.3, de 2025, 96. Linhas de código-fonte: 1.14, 79 mil; 2.0, 89 mil; 3.0, 145 mil; 4.0, 163 mil; 5.0, 188 mil; 5.3, 231 mil. O manual, man bash, foi diagramado com o groff em páginas tamanho carta. As linhas de código contam todos os arquivos C, de cabeçalho, de gramática e de comandos embutidos do pacote, incluindo bibliotecas que vêm junto, como a Readline, que cuida da digitação e do histórico. A versão 1.14 é a mais antiga que o GNU ainda oferece

O manual mais que dobrou, de 37 para 96 páginas, e o código quase triplicou. Mesmo assim, um script escrito para o Bash nos anos 1990 normalmente ainda roda hoje. Quem mantém o Bash se esforça muito para não quebrar scripts antigos, porque boa parte do mundo depende deles.

Você mesmo pode ler esse manual de 96 páginas: digite man bash (aperte q para sair). Ele é famoso por ser longo, e por ser completo.

A família dos shells

O Bash não surgiu do nada. Ele faz parte de uma família de shells do Unix que vem desde 1971:

A árvore genealógica dos shells. O Thompson shell, de 1971, foi o primeiro shell do Unix. Dele descendem o Bourne shell, sh, de Stephen Bourne, em 1979, e o C shell, csh, de Bill Joy, em 1978. Do Bourne shell descendem o ash, depois dash, de 1989, leve e rápido; o KornShell, ksh, de David Korn, em 1983; e o Bash, de Brian Fox para o GNU, em 1989. O Bash também pegou recursos do C shell. Do C shell descende o tcsh, um csh melhorado de 1981. O Z shell, zsh, de Paul Falstad, em 1990, pegou recursos do ksh, do Bash e do tcsh. Famílias à parte: o fish, de 2005, com regras próprias, e o PowerShell, da Microsoft, de 2006. O nome é um trocadilho em inglês: "Bourne Again SHell" soa como "born again", ou seja, o Bourne shell renascido como software livre

Em 1979, Stephen Bourne, do Bell Labs, escreveu o Bourne shell, conhecido simplesmente como sh. Ele virou o shell padrão do Unix, e o seu jeito de escrever comandos e scripts ainda é a base da maioria dos shells de hoje.

Só que o Bourne shell pertencia à AT&T. Nos anos 1980, o Projeto GNU, criado por Richard Stallman para construir um sistema parecido com o Unix totalmente livre, precisava de um shell livre. Em 1988, o programador Brian Fox começou a escrever um para a Free Software Foundation, e o lançou em 1989. Ele entendia os scripts do Bourne shell, juntava os melhores recursos de outros shells e ganhou um nome brincalhão: Bourne Again SHell. Em inglês, "Bourne again" soa igual a "born again", que quer dizer "nascido de novo".

Alguns anos depois, Chet Ramey assumiu os cuidados com o Bash. Ele o mantém há mais de três décadas, o que faz dele um dos guardiões mais longevos de qualquer software importante.

Quando o Linux apareceu, em 1991, ele combinou o kernel de Linus Torvalds com as ferramentas do GNU, o Bash entre elas. O Linux levou o Bash a todo lugar aonde foi, o que hoje quer dizer a maioria dos servidores da internet.

O dia em que o Bash virou notícia

Em setembro de 2014, um pesquisador de segurança chamado Stéphane Chazelas encontrou no Bash um bug que tinha passado despercebido desde 1989. Ele ganhou o apelido de Shellshock.

O problema estava no jeito como o Bash lia certas configurações passadas a ele por outros programas. Um texto montado com cuidado podia enganar o Bash e fazê-lo executar comandos que ninguém pediu. Como muitos servidores web usavam o Bash nos bastidores, às vezes um atacante conseguia tomar o controle de um servidor só visitando um endereço web com o texto errado.

As correções saíram em poucos dias, e administradores de sistemas do mundo todo correram para atualizar. O episódio serviu de alerta: alguns dos softwares mais importantes do mundo são mantidos por pouquíssimas pessoas, muitas vezes por amor ao trabalho.

Uma breve história

Uma breve história do Bash, numa linha do tempo. 1971: o Thompson shell, o primeiro shell do Unix. 1979: o shell de Stephen Bourne sai no Unix Versão 7. 1989: Brian Fox lança o Bash para o projeto GNU. 1996: Bash 2.0, e o Linux leva o Bash a toda parte. 2003: o Mac OS X 10.3 adota o Bash como padrão. 2009: o Bash 4.0 traz listas de valores com nome. 2014: o Shellshock, um bug de 25 anos, é achado e corrigido. 2016: o Windows passa a rodar o Bash, via Linux embutido. 2019: Bash 5.0, e o Mac troca para o zsh. 2025: Bash 5.3, ainda mantido por Chet Ramey

Experimente você mesmo

É quase certo que o seu computador já tem um shell agora mesmo:

  • Mac: abra o aplicativo Terminal (procure com Cmd + Espaço). O shell será o zsh, que entende todos os comandos básicos deste artigo. Digite bash e aperte Enter para trocar para o Bash, e exit para voltar.
  • Linux: abra o aplicativo Terminal. É muito provável que já seja o Bash.
  • Windows: abra o PowerShell como administrador e rode wsl --install. Depois de reiniciar, você terá o Ubuntu Linux com o Bash dentro do Windows. Ou instale o Git para Windows, que vem com o Git Bash.

Depois, experimente alguns comandos seguros:

1pwd                      # onde estou?
2ls                       # o que tem aqui?
3echo "Olá, $USER"        # diga olá
4echo $((60 * 60 * 24))   # segundos num dia
5date                     # a data e a hora de hoje
6history                  # tudo o que você digitou até agora

Duas dicas de segurança: cuidado com o rm, que apaga na hora e sem lixeira, e nunca cole no seu terminal comandos de desconhecidos da internet sem entendê-los. Um shell faz exatamente o que você manda, inclusive as coisas ruins.

Perguntas comuns

O Bash é uma linguagem de programação? Sim. O Bash é ao mesmo tempo um shell em que você digita e uma linguagem de script, com variáveis, loops e decisões. Ele é ótimo para ligar programas entre si e automatizar tarefas, e não foi feito para construir aplicativos grandes.

Qual é a diferença entre o Bash e o zsh? São primos próximos. Os dois entendem quase todos os comandos do dia a dia, e a maioria dos scripts simples funciona nos dois. O zsh traz comodidades extras para digitar, e o Bash é mais comum em servidores e em scripts.

O Prompt de Comando do Windows é a mesma coisa? É a mesma ideia, um shell, mas de outra família. O Prompt de Comando descende do DOS, e o PowerShell é o shell moderno da Microsoft. Os comandos são diferentes: dir em vez de ls, por exemplo. Veja O Que É o Sistema Operacional DOS? para esse ramo da história.

O que é sudo? Um comando que executa outro comando como administrador, o usuário que pode mudar qualquer coisa. Ele aparece em instruções de instalação, como sudo apt install firefox. Ele pede a sua senha porque é poderoso.

Preciso do Bash se não sou programador? Não, mas um pouco já ajuda muito. Se um dia você precisar renomear centenas de arquivos, consertar um projeto com Raspberry Pi ou seguir instruções técnicas, saber dez comandos deixa tudo bem menos assustador.

Glossário

  • Shell: um programa que lê os comandos que você digita e os executa.
  • Bash: o Bourne Again SHell, o shell mais usado, criado para o Projeto GNU em 1989.
  • Terminal: a janela que mostra o texto do shell. Também chamado de emulador de terminal.
  • Linha de comando: digitar comandos, em oposição a clicar numa interface gráfica.
  • Prompt: o texto, como maria@laptop:~$, que mostra que o shell está pronto para um comando.
  • Comando: a primeira palavra que você digita, o que fazer, como cp.
  • Opção: uma configuração que muda o funcionamento de um comando, normalmente começando com hífen, como -v.
  • Argumento: aquilo sobre o que o comando deve agir, como o nome de um arquivo.
  • Curinga: um padrão como *.jpg que o Bash expande nos nomes de arquivo que combinam.
  • Variável: um nome que guarda um valor, lido com $, como $USER.
  • Pipe: o símbolo |, que manda a saída de um comando para outro.
  • Script: um arquivo de comandos que pode ser executado como um programa.
  • Shebang: a primeira linha #!/bin/bash, que diz qual programa deve rodar um script.
  • PATH: a lista de pastas onde o Bash procura programas.

Para encerrar

O Bash é o garçom entre você e a cozinha do seu computador. Você digita um pedido em palavras, ele expande os seus atalhos, encontra o programa certo, executa e mostra a resposta. Salve alguns desses pedidos num arquivo, e você terá um script capaz de fazer em um segundo o que levaria uma hora de cliques.

Ele nasceu em 1989 como uma cópia livre de um shell mais antigo, ganhou um nome com trocadilho e hoje roda na maioria dos servidores que formam a internet. Você não precisa virar especialista. Abra um terminal, digite pwd, depois ls, e então aperte a seta para cima. Você acabou de ter a sua primeira conversa com o Bash.

Obrigado pela leitura!

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