A História dos Smartphones, do Tijolo ao Computador de Bolso
Uma história simples e sem jargão do smartphone, de uma ligação em 1973 num aparelho do tamanho de um tijolo aos computadores de bolso que bilhões de pessoas carregam hoje. Conheça o IBM Simon, a Nokia, o BlackBerry, o iPhone e o Android.

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Olhe em volta num ônibus, num café ou numa sala de espera e você provavelmente vai ver a maioria das pessoas olhando para um pequeno retângulo de vidro. O smartphone ficou tão comum que é fácil esquecer como ele é novo: o iPhone saiu em 2007, e o primeiro celular Android em 2008. Mesmo assim, em menos de 20 anos, esses aparelhos substituíram câmeras, mapas, tocadores de música, despertadores e, para muita gente, o próprio computador.
Este artigo conta, em linguagem simples, como chegamos até aqui: da primeira ligação feita de um celular de mão em 1973, passando pelos celulares "tijolo", pela Nokia e pelo BlackBerry, até os aparelhos com tela sensível ao toque que carregamos no bolso hoje.
Antes do smartphone: telefones que se moviam
Telefones que dava para levar junto existiam muito antes dos smartphones. No fim dos anos 1940, alguns carros nos Estados Unidos tinham radiotelefones, mas eles eram enormes, caros, e só algumas ligações podiam acontecer ao mesmo tempo numa cidade inteira.
Em 3 de abril de 1973, um engenheiro da Motorola chamado Martin Cooper parou numa rua de Nova York e fez a primeira ligação de um celular de mão. Ele ligou para um engenheiro rival, da empresa concorrente Bell Labs, para contar a novidade.
Levou mais dez anos para esse telefone chegar às lojas. O Motorola DynaTAC 8000X começou a ser vendido em 1983:

O DynaTAC pesava cerca de 790 gramas, custava US$ 3.995 (bem mais de 10 mil dólares em valores de hoje), e a bateria durava cerca de 30 minutos de conversa depois de carregar por umas 10 horas. As pessoas o chamavam de "tijolo". Ele só fazia ligações.
Por que "celular"?
A palavra "celular" não descreve o aparelho. Ela descreve a rede:

Em vez de uma antena gigante para a cidade inteira, o território é dividido em muitas áreas pequenas chamadas células, cada uma com a sua torre. O seu celular só precisa alcançar a torre mais próxima, então pode usar uma bateria pequena. Enquanto você anda ou dirige, a ligação passa discretamente de uma torre para a próxima. E, como cada célula é pequena, células suficientemente distantes podem reaproveitar os mesmos canais de rádio, o que permite que milhões de pessoas usem o celular ao mesmo tempo.
Os "G": gerações de redes móveis
Você provavelmente já viu "4G" ou "5G" no topo da tela do celular. O G quer dizer geração, e cada uma mudou o que os celulares conseguiam fazer:

- 1G (Japão em 1979, EUA em 1983) só transmitia voz, como um sinal de rádio analógico, parecido com o rádio FM. Qualquer pessoa com o rádio certo podia escutar.
- 2G (Finlândia, 1991) deixou as ligações digitais, mais claras e privadas, e trouxe as mensagens de texto (SMS). A primeira mensagem de texto, "Merry Christmas" ("Feliz Natal"), foi enviada em 3 de dezembro de 1992.
- 3G (Japão, 2001) tornou a internet móvel prática: e-mail e sites simples na rua.
- 4G (Suécia e Noruega, 2009) foi rápido o bastante para vídeo, mapas, música por streaming e chamadas de vídeo, as coisas que tornam o smartphone tão útil.
- 5G (Coreia do Sul e EUA, 2019) é mais rápido ainda e aguenta muito mais aparelhos ao mesmo tempo.
O primeiro smartphone: IBM Simon (1994)
Muitos historiadores consideram o IBM Simon, vendido em 1994, o primeiro smartphone, embora a palavra ainda nem existisse. Ele tinha tela sensível ao toque (usada com uma canetinha ou com o dedo) e, além de ligar, mandava e-mails e faxes, tinha agenda, lista de contatos e bloco de notas.
Ele estava à frente do seu tempo. Pesava cerca de meio quilo, a bateria durava mais ou menos uma hora de uso, e custava cerca de 899 dólares com contrato. Só umas 50 mil unidades foram vendidas.
Os anos da Nokia
No fim dos anos 1990, os celulares estavam ficando pequenos, baratos e populares, e a empresa finlandesa Nokia se tornou a maior fabricante de celulares do mundo. O Nokia 3310 (2000) ainda é lembrado por ser quase indestrutível, pela bateria que durava dias e pelo jogo da cobrinha (Snake).
A Nokia também fez os primeiros smartphones com um sistema operacional chamado Symbian, que foi o sistema de smartphone mais comum do mundo durante boa parte dos anos 2000. Enquanto isso, o Japão corria na frente: em 2000, celulares japoneses já navegavam num serviço de internet móvel chamado i-mode e tiravam fotos com câmeras embutidas.
BlackBerry: e-mail no bolso
No começo dos anos 2000, a empresa canadense Research In Motion fabricava o BlackBerry. O tecladinho físico e o e-mail instantâneo o tornaram o aparelho obrigatório de executivos e políticos. Ele era tão viciante que ganhou o apelido de "CrackBerry". Outros aparelhos "inteligentes" da época incluíam o Palm Treo e celulares com o Windows Mobile, da Microsoft.
Esses celulares eram úteis, mas complicados, as telas eram pequenas, e navegar na web de verdade neles era sofrido.
2007: o iPhone muda tudo
Em 9 de janeiro de 2007, Steve Jobs apresentou o iPhone como três aparelhos em um: um tocador de música iPod, um telefone e um comunicador de internet. Ele começou a ser vendido em 29 de junho de 2007.
O iPhone não tinha teclado físico. Em vez disso, quase toda a frente era uma tela controlada com os dedos, com gestos como deslizar e fazer pinça para dar zoom (multitoque). Ele também tinha um navegador de verdade, que mostrava os sites completos, e não páginas "móveis" simplificadas. Por dentro, ele rodava uma versão do mesmo sistema do Mac (veja O Que É o macOS?).
Um ano depois, em julho de 2008, a Apple abriu a App Store, que permitiu a qualquer pessoa criar apps e vendê-los aos donos de iPhone. Isso transformou o celular numa plataforma: de repente, havia apps de jogos, banco, mapas, música, fotos e, com o tempo, de quase tudo.
Android: o smartphone para todos
O Google tinha comprado uma pequena empresa chamada Android em 2005 e, em outubro de 2008, o primeiro celular Android, o HTC Dream (vendido como T-Mobile G1), chegou às lojas. O Android é construído sobre o kernel Linux (veja O Que É o Sistema Operacional Linux?), e o Google deixa os fabricantes usá-lo de graça.
Essa decisão espalhou o Android por toda parte. Samsung, Motorola, LG, Huawei, Xiaomi e dezenas de outras empresas fizeram celulares Android de todos os preços, dos topo de linha caros aos modelos bem baratos. Hoje, a maioria dos smartphones do mundo roda Android.
A ascensão e a queda dos sistemas de celular
Reunimos os registros da StatCounter sobre quais sistemas operacionais as pessoas usavam para navegar na web pelo celular, mês a mês, desde 2009:

O gráfico mostra uma das reviravoltas mais rápidas da história dos negócios:
- Em 2009, os celulares Nokia faziam cerca de 40% das visitas a sites feitas por celular. Em 2016, eram cerca de 2%. A Nokia vendeu a sua divisão de celulares para a Microsoft em 2014.
- O BlackBerry chegou ao auge em 2010, com cerca de 16%, e depois sumiu. A empresa parou de projetar os próprios celulares em 2016.
- O Android saltou de cerca de 2% para mais de 70% em menos de uma década.
- Desde 2011, o iPhone ficou entre cerca de um quinto e um terço do total. Isso varia muito por país: em setembro de 2026, os iPhones fizeram cerca de 54% das visitas por celular nos Estados Unidos e 60% no Japão, mas cerca de 21% no Brasil.
- O Windows Phone, da Microsoft, nunca passou de cerca de 2,5% e foi descontinuado.
Lembre que a StatCounter mede a navegação na web, não celulares vendidos. Os donos de iPhone navegavam especialmente muito nos primeiros anos, e é por isso que o iPhone parece tão forte em 2009.
Os celulares passaram os computadores

Em 2009, cerca de 99% das visitas a sites vinham de computadores de mesa e notebooks. Em novembro de 2016, pela primeira vez, mais visitas vieram de celulares do que de computadores, e os celulares continuam na frente desde então. Para bilhões de pessoas, especialmente em países onde computadores sempre foram raros e caros, o smartphone é o primeiro e único computador.
As telas não pararam de crescer
A tela de 3,5 polegadas do primeiro iPhone parecia grande em 2007. Não continuou grande por muito tempo:

Conforme as pessoas passaram a usar o celular para vídeos, jogos e leitura, as telas cresceram de 3,5 para quase 7 polegadas. Para caber na mão e no bolso, os fabricantes diminuíram as bordas em volta da tela e, em 2017, tiraram o botão de início do iPhone. Em 2019, o Galaxy Fold da Samsung trouxe um celular com tela que dobra ao meio e se abre como um pequeno tablet.
Um aparelho, muitos aparelhos

Talvez a maior mudança seja quantas coisas separadas um smartphone substituiu. Câmeras, tocadores de música, aparelhos de GPS, despertadores, lanternas e mapas de papel eram compras separadas. Hoje são apps ou recursos embutidos de um só aparelho, junto com o seu banco, o seu cartão de embarque e, cada vez mais, a sua carteira, como no Pix e nos pagamentos por aproximação.
Uma breve história

O lado nem tão bom
Os smartphones também trouxeram desafios de verdade:
- Distração e tempo de tela. Muita gente tem dificuldade de largar o celular, e muitos apps são feitos para manter você rolando a tela.
- Privacidade. O celular sabe aonde você vai, com quem conversa e o que pesquisa, e alguns apps coletam e vendem essas informações.
- Custo e lixo. Os celulares são trocados a cada poucos anos, e os antigos viram lixo eletrônico.
- Dependência. Perder o celular pode significar perder de uma vez o acesso às mensagens, ao banco, às fotos e aos ingressos.
Um pequeno glossário
- Celular (telefone móvel): um telefone que se conecta por rádio a uma rede de torres.
- Smartphone: um celular que também é um computador, com apps e acesso à internet.
- Celular básico: um celular mais simples, principalmente para ligações e SMS.
- Célula: a pequena área atendida por uma torre numa rede móvel.
- 1G a 5G: as gerações de redes móveis, cada uma mais rápida e capaz.
- SMS: uma mensagem de texto.
- Sistema operacional: o programa principal de um aparelho, como o Android ou o iOS.
- iOS: o sistema operacional da Apple para o iPhone.
- Android: o sistema operacional do Google, usado pela maioria dos smartphones do mundo.
- Loja de apps: uma loja on-line para instalar apps no celular.
- Multitoque: uma tela sensível ao toque que entende vários dedos ao mesmo tempo, para gestos como a pinça para dar zoom.
Para encerrar
Em cerca de 50 anos, o celular passou de um tijolo de 790 gramas que só fazia ligações a um computador fino de vidro que cabe no bolso e faz quase tudo. O maior salto aconteceu em poucos anos, por volta de 2007 e 2008, quando o iPhone, a App Store e o Android transformaram os celulares em computadores e mudaram quais empresas mandavam no setor.
Da próxima vez que você pegar o celular, lembre: você está segurando o descendente do tijolo, do Simon, do Nokia e do BlackBerry, e uma das ferramentas mais poderosas que as pessoas já carregaram.
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